Nas águas densas onde a luz se curva,
e o silêncio pulsa como um coração antigo,
eu descia — não em queda,
mas em entrega.
O azul tornava-se espesso, quase memória,
e o tempo, dissolvido, já não contava passos.
Foi então que os vi —
não como estranhos,
mas como algo que sempre me soube.
Uma família de tritões me cercava,
com olhos de abismo e ternura,
suas mãos suaves guiando correntes invisíveis,
como quem conhece os caminhos do sentir.
O mais velho tocou minha fronte,
e sem palavras disse:
“Não temas o fundo —
é lá que repousa o que ainda não foste.”
Uma jovem tritã sorriu,
tecendo ao meu redor fios de luz líquida,
e cada gesto seu acalmava
as ondas internas que eu nem sabia nomear.
E havia uma criança —
brincando entre redemoinhos,
mostrando que até nas profundezas
há espaço para o riso leve da alma.
Nadávamos juntos,
não contra a corrente,
mas com ela —
como quem aprende a escutar o próprio destino.
E quanto mais fundo íamos,
mais claro tudo se tornava:
os medos eram sombras dissolvidas,
e o desconhecido, um ventre sagrado.
Quando enfim me soltaram,
já não havia solidão,
pois algo deles ficou em mim —
ou talvez, algo de mim tenha despertado neles.
E emergi,
não como quem retorna,
mas como quem nasce
das águas profundas do próprio ser.